quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A DÍVIDA PÚBLICA: QUE PROBLEMA!

Neste século XXI, os países europeus parecem entregues a uma crise internacional da dívida. Como reduzir uma dívida pública elevada, tal como a atual dívida europeia?
Existem três métodos principais que podemos combinar: o imposto sobre o capital, a inflação e a austeridade. O imposto excecional sobre o capital privado é a solução mais justa e mais eficaz. À falta disso, a inflação pode desempenhar um papel útil: foi assim que na história, a maior parte das dívidas públicas foram reabsorvidas. A pior solução, quer quanto à justiça, quer quanto à eficácia é a opção da austeridade. No entanto é essa a medida que está a ser seguida  atualmente pela Europa com efeitos nefastos para todos os cidadãos e para a economia.
A posição oficial da Europa relativamente ao Resto do Mundo é, em média bastante próxima do equilíbrio, o que significa que as empresas europeias,são normalmente detidas pelas famílias europeias. Esta realidade está obscurecida pela complexidade do sistema de intermediação financeira: aplicamos as nossas economias num banco, numa conta - poupança ou num produto financeiro, e depois o banco aplica -as noutro lado qualquer. Não podemos esquecer, que nas famílias europeias, os patrimónios são sempre muito concentrados, com mais de 60% do total nas mãos dos 10% mais ricos, pois possuem o equivalente de tudo o que há de possuir na Europa, incluindo as dívidas públicas.Como reduzir a dívida pública a zero?
Uma primeira solução seria privatizar todos os ativos públicos. Segundo as contas nacionais dos diferentes países europeus, o produto das vendas de todos os edifícios públicos: escolas,universidades hospitais e infraestruturas, permitem reembolsar as dívidas públicas. Em vez de deter a dívida pública, por via das aplicações financeiras, as famílias europeias mais dotadas em património iriam tornar -se proprietárias. Em seguida seria necessário pagar -lhes uma renda para poder utilizar esses ativos e continuar a produzir os serviços públicos correspondentes. Esta solução deverá ser afastada, porque para que o Estado europeu possa assegurar corretamente as suas tarefas, em particular na educação, saúde e segurança parece indispensável que continue a ter os ativos públicos correspondentes. É importante compreender que a a atual situação, que obriga ao pagamento dos pesados juros da dívida pública, sobrecarregam todos os anos de uma forma pesada os orçamentos familiares.
Aquela que é,  de longe, a solução mais satisfatória para reduzir a dívida pública, consiste em reter um imposto excecional sobre o capital privado. Por exemplo, um imposto proporcional de 15% sobre todos os patrimónios privados geraria cerca de um ano de rendimento nacional, e, assim permitiria reembolsar todas as dívidas públicas. O Estado continuaria a deter os seus ativos públicos, mas o valor das suas dívidas seria reduzido a zero, pelo que deixaria de ter juros para pagar. A vantagem do imposto excecional sobre o capital, é uma solução que permite organizar as coisas de uma forma mais civilizada. Garante -se deste modo,dar a  cada um de acordo com o esforço exigido, e, sobretudo são evitadas potências bancárias, uma vez que são os detentores finais  dos patrimónios que são chamados a contribuir. Para isso é indispensável que as atividades públicas disponham em permanência de transmissões automáticas de informações bancárias, relativas ao conjunto dos ativos detidos por uns e por outros. A vantagem da solução fiscal é que permite modular o esforço pedido em função do nível de património de cada um.Mais vale aplicar uma tabela progressiva para poupar os patrimónios mais modestos e exigir mais, aos mais elevados. Por outro lado, a inflação seria outro método possível para reduzir a dívida: ora sendo a dívida pública um ativo nominal(ou seja, o preço é fixado à partida e não depende da inflação) e não um ativo real, ou seja: o preço evolui em função situação económica, pelo menos tão depressa como a inflação. Por exemplo, com a inflação de 5% ao ano em vez de 2%, ao fim de cinco anos, o valor real da dívida, expresso em percentagem do PIB,seria reduzido em mais de 15%, o que é bastante considerável.. Os países seriam efetivamente bem sucedidos e deixariam o seu sobre-endividamento, muito mais depressa. Existe ainda um outro argumento, a favor da inflação:por comparação com o imposto sobre o capital que, conduz inevitavelmente a subtrair recursos a pessoas que se preparam para gastá -los e de forma útil(para consumir e para investir), a inflação tem o mérito de incidir naqueles que conservaram demasiada liquidez nas suas contas bancárias. São poupados todos aqueles que já gastaram tudo, aqueles que investiram tudo em ativos económicos reais e aqueles que estão endividados, o que lhes permite lançarem -se mais depressa em novos projetos de investimento. Segundo esta visão, a inflação seria de alguma forma, um encorajamento ao capital dinâmico. Concluindo: a verdade é que a inflação é um instrumento impreciso no seu objetivo. Entre escolher inflação ou mais austeridade é preferível um pouco mais de inflação.Então qual é o nível desejável de dívida pública? Não existe qualquer certeza absoluta sobre este assunto, apenas a deliberação democrática pode permitir responder a esta pergunta, em função dos objetivos que uma sociedade atribui a si mesma e dos desafios que enfrenta. Investir mais na nossa sociedade e dar mais segurança aos cidadãos, conduziria a uma economia mais eficiente e dinâmica, tornando a própria sociedade mais igualitária, de modo a influenciar as nossas políticas micro e macro- económicas.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

DEPRESSÃO ECONÓMICA: QUE PARADOXOS?

A economia está em todo o lado. A economia trabalha com a escassez e o custo de oportunidade- o custo de recusar a melhor alternativa quando se toma uma decisão. Mas nem sempre é assim. Por vezes surgem depressões. Quando a economia está em depressão, a escassez deixa de dominar, os recursos ficam inativos, pelo que é possível ter mais de algumas coisas, sem ter menos de outras.
O que define uma recessão? É um período em que a maioria das atividades económicas está a descer. E as depressões? Por vezes os economistas tentam definir as depressões com uma descida de 10% ou mais na produtividade.No entanto, quando falamos da Grande Depressão, não nos referimos apenas à crise de 1929- 1933: estamos a falar de todo o período que inclui episódios de crescimento a períodos de declínio. O que provocou a grande depressão foi o fato das economias estarem abaixo da sua capacidade. As crises vulgares terminam com relativa rapidez, porque os bancos centrais cortam nas taxas de juro e a economia volta a crescer. Todavia, durante a Grande Depressão, estes bancos não podiam fazê -lo, porque as taxas a curto prazo, estavam muito próximas do zero e não podiam descer mais. Portanto, na verdade, as depressões são definidas em termos de situações em que a economia está persistentemente abaixo da sua capacidade e , em que a expansão monetária é ineficaz, porque as taxas de juro estão perto do zero. Desde que as pessoas começaram a aperceber -se do fenómeno dos ciclos económicos, assumiram que a queda brusca dos preços é uma consequência necessária. Os altos e baixos da economia pode dificultar a aplicação das políticas corretas. Portanto uma depressão é uma situação em que a economia está a funcionar abaixo da sua capacidade e, em que a política económica não permite recuperar pleno emprego. A economia da depressão é marcada por dois paradoxos: o paradoxo da poupança, em que a tentativa de poupar mais, faz na realidade, com que a nação poupe menos , e, o paradoxo da flexibilidade, em que a disponibilidade dos trabalhadores em proteger os seus empregos, aceitando salários mais baixos, reduz de fato o emprego total. Quanto ao paradoxo da poupança: para a economia no seu todo, as poupanças, em termos contabilísticos, são sempre iguais a investimento. Mas tudo isso funciona através das taxas de juro mais baixas que, diretamente reduzem os custos dos empréstimos ou, indiretamente,conduzem a preços mais baixos das ações, seja como for, o custo do capital cai para as empresas que pensam em expandir -se, sendo o resultado mais investimento.. Ora numa depressão as taxas de juro, a curto prazo, não podem descer, porque já estão em zero. Portanto o mecanismo das poupanças para o investimento é interrompido. E quando há uma queda nas despesas totais, a economia entra numa maior depressão, por isso há menos razões para as empresas expandirem a sua capacidade, ou seja para investir.
E quanto ao paradoxo da flexibilidade? Normalmente , a maneira de conseguir que as pessoas comprem mais é reduzir o preço. Mas se não há empregos suficientes, qual a resposta para os cortes dos salários? Ora é verdade que os trabalhadores de uma empresa, podem salvar os seus empregos, aceitando cortes nos salários, isto porque ao reduzirem os salários, o seu trabalho e os produtos que fabricam ficam mais baratos em comparação com o trabalho e os produtos de outros trabalhadores. Mas quando o nível geral dos salários baixa, ninguém ganha uma vantagem relativa. Se se verifica algum efeito positivo no emprego, isso deve -se às taxas de juro. Na prática a maneira como isto funciona tende ser através do banco central: salários mais baixos, significa inflação mais baixa, o que incentiva o banco central a cortar nas taxas de juro, levando a uma maior procura e mais emprego, Contudo, numa depressão as taxas de juro não podem ser cortadas, por isso não existe nenhum canal por onde os salários mais baixos possam aumentar o emprego. Ora se os salários, os preços e os rendimentos também caem, o peso real da dívida também sobe, reforçando o efeito depressivo da dívida sobre as despesas.Isto significa que a existência de mercados de trabalho flexíveis, em que os salários caem rapidamente devido ao desemprego, é uma solução preversa em condições de depressão. Então como combater a depressão? Uma depressão é uma situação em que as medidas políticas que habitualmente tomamos, nomeadamente cortes nas taxas de juro pelo banco central, são insuficientes. Contudo isso não significa que não se possa fazer nada. Em condições de depressão, o fato de o governo contrair empréstimos, não desmotiva o investimento privado, pelo contrário, provavelmente leva a um investimento privado mais elevado, porque uma economia mais forte, dá aos negócios mais razões para se expandirem. Mas não será irresponsabilidade contrair empréstimos e sobrecarregar com dívidas as gerações futuras? Não, porque quando estamos em depressão, o benefício de contrair empréstimos ajuda a pôr a trabalhar os recursos não empregados, ou seja a criar mais empregos. Muitos economistas acreditam que a saúde orçamental é boa para combater a depressão. Em tempos de crise como esta, seria útil, se os bancos centrais tivessem orçamentos equilibrados e um compromisso firme com a estabilidade de preços.

sábado, 8 de novembro de 2014

COMO CONSTRUIR UMA OUTRA EUROPA?

Os governos dos países europeus optaram por impor aos seus povos, políticas de austeridade, com cortes significativos nas despesas públicas: despedimentos na função pública,congelamento e redução dos salários dos funcionários, redução do acesso a determinados serviços públicos vitais de proteção social e adiamento da idade da reforma. O custo das prestações dos serviços públicos aumentou,(transportes, água, saúde, educação, bem como a subida de impostos indiretos, nomeadamente do IVA. A austeridade agravou o crescimento económico e desencadeou um efeito bola de neve, ou seja: sendo o crescimento fraco, a dívida pública cresce. São os assalariados, os desempregados e as famílias mais carenciadas que mais contribuem para os Estados engordarem. Segundo as estatísticas, desde 1980, centenas de milhares de milhões de euros de dádivas fiscais foram essencialmente orientadas para a especulação e acumulação de riqueza, por parte dos mais ricos. É preciso conjugar uma reforma em profundidade da fiscalidade, que tenha um objetivo de justiça social(reduzir simultaneamente, os rendimentos e o património dos mais ricos para aumentar os rendimentos da maioria da população), com a sua harmonização no plano europeu, a fim de evitar o dumping fiscal. O objetivo será um aumento das receitas públicas, nomeadamente através de um imposto progressivo, sobre o rendimento das pessoas mais ricas. O aumento das receitas deve ser paralelo a uma baixa rápida do preço de acesso aos bens e serviços de primeira necessidade (alimentos,água,eletricidade, transportes públicos e material escolar), nomeadamente por uma redução forte do IVA, sobre esses bens e serviços vitais. Trata -se de adotar uma política fiscal que favoreça a proteção do ambiente, tributando as indústrias poluentes. Segundo várias opiniões é necessário lutar contra os paraísos fiscais que fazem perder recursos para o desenvolvimento.
Também convém proibir a especulação com títulos da dívida pública, com as moedas, com os alimentos,as vendas a descoberto e os Credit  Default Swaps. É preciso fechar os mercados paralelos de produtos derivados que são verdadeiros buracos negros.O setor das agências de notação também deve ser estritamente reformado. Essas agências são estruturalmente partes interessadas da globalização neoliberal, e desencadearam várias vezes, catástrofes sociais. Com efeito, a baixa da notação de um país, pode implicar uma subida das taxas de juro, que o Estado tem de pagar, para conseguir pedir empréstimos nos mercados financeiros. Devido a isso, a situação financeira do país deteriora -se. Segundo opiniões de vários economistas, repartir a riqueza de outra forma é a melhor resposta para a crise. A parte das riquezas produzidas, destinadas aos assalariados, baixou nitidamente  há várias décadas, enquanto os credores e as empresas aumentaram os seus lucros   para os destinarem à especulação. Por outro lado, diminuindo o tempo de trabalho, sem redução de salário e criando emprego, melhora a qualidade de vida dos trabalhadores.
Também várias disposições dos Tratados que regem a União Europeia, devem ser ab-rogadas. Por exemplo é necessário substituir os Tratados atuais por novos, a fim de se chegar a um pacto de solidariedade dos povos para o emprego e para o ambiente. É ainda necessário rever a política monetária, bem como o estatuto e a prática do BCE. O BCE deve poder financiar Estados que pretendam atingir objetivos sociais e ambientais que integram as necessidades fundamentais das populações.  Uma Europa construída sobre a solidariedade e a cooperação, permite virar as costas à concorrência e à competição. Uma outra Europa, centrada na cooperação entre Estados e na solidariedade entre os povos, a fim de ser adotada uma Constituição , deve ser o objetivo prioritário. Para tal,as políticas orçamentais e fiscais não devem ser uniformizadas, porque as economias europeias apresentam fortes disparidades. Deverão ser impostas políticas globais à escala europeia, incluindo investimentos públicos, para a criação de emprego em domínios essenciais.
Esta outra Europa, deve reforçar a justiça fiscal e social, aumentar a qualidade de vida dos cidadãos e reduzir a dívida.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

UM ESTADO SOCIAL PARA O SÉCULO XXI

Neste início do século XXI, quando, algumas desigualdades que acreditávamos estar ultrapassadas, no quadro da nova economia global, poderemos esperar por uma evolução do capitalismo mais pacífica, ou deveremos estar na expetativa das próximas crises mundiais?
Que instituições regulam o capitalismo do século XXI?
A instituição ideal que permite evitar uma espiral desigualitaria sem fim , seria um imposto mundial e progressivo sobre o capital, dado que este imposto é um dos elementos do sistema fiscal e social na construção de um Estado social adaptado ao século XXI. O peso do Estado  é atualmente muito maior do que nos anos anteriores a 2010. Daí a crise atual, ser traduzida num questionamento do peso e do poder dos Estados, tendo este, na vida social e económica um papel central que foi adquirido no pós- guerra. Não há dúvida, de que é necessário renovar e modernizar profundamente os sistemas de tributação e de despesas que estão no coração do Estado social moderno e que constituíram um enorme desafio para as nossas sociedades democráticas neste século XXI. Seja como for, o sistema redistributivo moderno e em particular o Estado Social, construído nos países ricos ao longo do século XX, fez-se em torno de um conjunto de direitos sociais fundamentais:o direito à educação, à saúde e à reforma. Esses sistemas sociais são objeto de um muito amplo consenso, nomeadamente na Europa, onde prevalece uma ligação muito forte ao que se designa por um "modelo social europeu". É certo que podemos sempre imaginar uma sociedade em que os impostos representavam dois terços ou três quartos do rendimento nacional, desde o momento em que fossem cobrados de uma maneira eficaz, fossem aceites por todos, e sobretudo, utilizados para financiar necessidades e investimentos prioritários na educação, na saúde, na cultura, nas energias limpas e no desenvolvimento duradouro. Antes de mais, o processo rápido de alargamento do papel do Estado, observado durante os 30 gloriosos anos, foi em grande parte acelerado e facilitado pelo crescimento forte que caracteriza este período: quando os rendimentos aumentam em 5% ao ano, não se justifica que parte desse crescimento seja todos os anos afetada à progressão da carreira fiscal e das despesas públicas, sobretudo num contexto em que as necessidades quanto à educação, saúde e reforma são evidentes. Mas desde os anos 90, tudo mudou: com um crescimento do rendimento médio por habitante a 1% ao ano, no máximo, ninguém deseja uma subida significativa da carga fiscal, porque iria agravar ainda mais a estagnação dos rendimentos e uma maior recessão.  Podemos pensar em redistribuições entre impostos, ou então numa maior progressão da carga fiscal, para uma massa global mais ou menos estável. É óbvio que existem objetivamente necessidades crescentes quanto à educação e saúde, que pode sem dúvida, justificar um ligeiro aumento das contribuições no futuro. Mas os habitantes dos países ricos teem também necessidades legítimas de poder de compra, para viajar, para se vestirem, se alojarem e acederem de novo aos serviços culturais. Num mundo de crescimento fraco de produtividade, é preciso fazer opções entre diferentes tipos de necessidades. Seria bom melhorar a organização e funcionamento do setor público que atualmente representa  metade do rendimento nacional. Nos países ricos, os debates sobre o Estado social, nas próximas décadas incidem antes de mais,  nas questões de organização, de modernização e de consolidação: para uma massa total de retenções e de despesas, em proporção do rendimento nacional.Como melhorar o funcionamento dos hospitais, das creches, nos honorários médicos, reformar as universidades, ou ajudar o cálculo das pensões de reforma ou dos subsídios de desemprego?
É certo que em todos os países, relativamente às instituições educativas e às despesas públicas com educação, existe uma certa mobilidade social: cada pessoa pode ter acesso à formação, quaisquer que sejam as suas origens sociais, mas é muito difícil medir as desigualdades sociais ao longo das várias gerações.
E quanto ás pensões de reforma? Os sistemas públicos de reforma assentam no essencial, no princípio da distribuição. Na opinião de muitos economistas, os sistemas de reforma por distribuição devem ser substituídos o mais depressa possível, por sistemas assentes na capitalização. As contribuições devem ser aplicadas e não transferidas imediatamente para os reformados, e dessa forma, poderão capitalizar -se a mais de 4% ao ano e financiar as futuras reformas durante algumas décadas. Mas, a transição da distribuição para a capitalização, engloba uma grande dificuldade que não é , de modo algum negligenciável. Deixa uma geração de reformados totalmente desprotegida. A geração que se prepara agora para se reformar e que financiou as pensões da geração precedente, veria com maus olhos o fato das contribuições que daqui a algum tempo lhes são transferidas. Os sistemas de reforma, atingiram uma complexidade extrema com diferentes regimes e diferentes regras, sendo o direito à reforma um enigma. No entanto, é credível que a criação de um regime único de reforma, fundado em contas individuais, possibilita, que cada pessoa, possa adquirir os mesmos direitos, qualquer que seja a complexidade da sua trajetória profissional, desde que façam parte das reformas do Estado social, no século XXI. Este sistema permite a cada pessoa antecipar o que pode esperar para os dias da reforma, organizar melhor as suas opções de poupança e de acumulação num mundo de crescimento económico fraco.
Será Portugal um Estado social?   Todas as tipologias da despesa (com exceção da dívida) teem vindo a ser cortadas para suportar a defesa do Estado social. A preocupação com a preservação da proteção social não significa um aumento das prestações sociais a cada indíviduo, uma vez que o número de pessoas carenciadas cresceu muito. Por outro lado, há menos cidadãos em condições de contribuir para o esforço da solidariedade nacional. Neste contexto é natural que muitas opiniões se referem ao recuo do apoio do Estado. Também como mostram as estatísticas, merecem especial referência as empresas, que nos últimos anos teem denotado grande tenacidade na proteção do emprego dos seus colaboradores. Tal realidade implica que a clara deterioração do mercado de trabalho entre 2010 e 2013, tenha resultado do colapso das novas contratações, o que obviamente impediu uma célere reabsorção dos trabalhadores despedidos, assumindo a sociedade portuguesa avultados custos.
























































































































































































































































domingo, 5 de outubro de 2014

UM PAÍS COM DESIGUALDADES

Portugal é um país que existe há muito tempo, tem uma presença significativa e bem marcada no seio da humanidade e que indiscutivelmente tem problemas que exigem solução. Esses problemas são os portugueses que sofrem, que os causam, são aqueles que fazem parte da nossa identidade. É necessário conhecer a realidade onde se vive. Qual é a nossa realidade? Portugal é um país médio, tem as fronteiras estáveis e um povo homogéneo e coeso, pelo que tem um valor enorme na estabilidade e sobrevivência do nosso povo.Muitas pessoas perante a evidência negam a possibilidade de sermos ricos, pela óbvia presença da pobreza entre nós, em particular devido à recessão. Como se pode ser rico no meio de tanta miséria?Todos os países teem pobreza e até nos mais ricos existe crises. Verifica -se em todos os países do mundo a vivência de pessoas com grandes dificuldades. Nas últimas décadas convencionou -se que Portugal está na cauda da Europa. No entanto, o nosso crescimento relativo face à média do produto europeu avançou 35% ao fim de 12 anos. De 1986 a 1996, o crescimento económico e a melhoria social foram significativos. Mas a 1 de Maio de 2004, quando entraram 10 países mais pobres que Portugal, a 1 de Janeiro de 2007, com mais dois e a 1 de Julho de 2013 com mais um, Portugal foi colocado numa posição desvantajosa. A disparidade de rendimentos e as desigualdades em Portugal, são conceitos difíceis de medir e avaliar. É muito difícil ter uma opinião clara àcerca do impacto social de um choque como a crise de 2008 a 2014. A recessão afetou sobretudo a classe média, inicialmente pela recessão económica, depois pelos cortes orçamentais.Portugal está sempre no fundo das tabelas da desigualdade da União Europeia.Se Portugal é desigual, quais os grupos que mais sofrem com esta desigualdade? É  nos estratos mais pobres e na classe média. Também as pensões recebidas pelos idosos mais pobres absorveram quase todos os choques económicos, enquanto as transferências sociais mantiveram a sua influência. Portugal tem uma estrutura social que sofre de forte desigualdade, sendo os mais idosos a classe mais desprotegida. A realidade de Portugal é aquela que todos nós vivemos  na recente crise. Perante tal colapso, os políticos nacionais e europeus envolveram -se numas terríveis discussões e teorias. Os cidadãos portugueses resolveram a sua vida: uns emigraram, outros reformaram-se, outros mudaram a sua atividade.Todos mudaram de vida. 
O tempo passa inexoravelmente, um momento de cada vez. O que fica? Aquilo que permanece em nós de quem mais passamos o nosso tempo: o conhecimento, a cultura, a educação, os valores.Portugal será compreendido e os seus problemas terão solução se existir solidariedade entre os cidadãos.

sábado, 20 de setembro de 2014

INOVAR EM PORTUGAL?

A crise atual é de âmbito europeu e internacional. Hoje, o endividamento resulta, em grande medida, do importante investimento realizado que cria condições para construir o futuro. Durante três décadas, o país investiu intensivamente na formação dos seus recursos humanos e na modernização das infraestruturas, criando condições para lançar um novo modelo de desenvolvimento. Este processo de modernização teve erros, insuficiências e limitações, criou novos problemas, e, ao mesmo tempo, criou novos meios e externalidades, desenvolvendo novas capacidades, que nos permitem agora abordar com uma melhor perspetiva os problemas da competitividade. Também criou uma dívida que não é solúvel nos prazos previstos. Necessitamos de quebrar o "garrote" que nos impede de tirar partido por três décadas de investimento . Como? colocar em evidência o potencial de crescimento existente, depois de uma década de quase estagnação e um contributo para a incontornável negociação de um programa de pagamento a cinquenta anos, e juros baixos que permitam a paragem da saída dos recursos humanos qualificados. O atraso, a intensidade no investimento e as opções tomadas na política de formação dos recursos humanos, agravam o dualismo da sociedade e da economia portuguesas. Desenvolvemos capacidades, no setor mais moderno, que permitam minorar o dualismo e desenvolver os setores tradicionais com recursos humanos menos qualificados. Construímos um sistema científico e tecnológico moderno com uma dimensão relevante, rejuvenescido e fortemente internacionalizado. Emergiu um novo tecido económico, com PME"S e algumas grandes empresas de base tecnológica que procuram a difusão de novas tecnologias e a criação de novos produtos. Novas tendências tecnológicas incorporadas pela I&D  em curso nas empresas permitem -nos encarar o desafio de construir um novo modelo de desenvolvimento que transforme o investimento em soluções inovadoras com impacto social, reforçando a qualidade de vida como motor de atração do investimento qualificado. Peveem -se  para os próximos anos mudanças importantes no enquadramento geoeconómico, abrindo -se a possibilidade de colocarmos Portugal nas correntes mais dinâmicas do comércio mundial. As melhorias conseguidas internamente,com a modernização das infra -estruturas, na formação dos recursos humanos e na capacidade de um sistema científico e tecnológico, colocam -nos numa melhor posição para tirar partido dessas mudanças geoeconómicas, para alterar o perfil da especialização e para atrair o investimento e o desenvolvimento da economia.
Será Portugal uma sociedade dual? Sim.  O dualismo derivado da formação desigual dos recursos humanos, afeta diferentes gerações, quer de trabalhadores, quer de  empresários. O dualismo na formação de empresários gestores tende a autoreproduzir -se, criando uma estratificação por épocas de criação das próprias empresas.. Exceto nos setores de criação mais modernos, as empresas mais antigas, tendem a manter recursos humanos com menos nível de formação e isso reflete -se na sua performance económica. O dualismo no grau de formação da população portuguesa condiciona, profundamente o funcionamento da sociedade e da economia e limita a eficácia de modernização  e reforço da competitividade.
Será que cresceu a inovação com a redução dos custos?
O impacto da inovação na economia era limitado pelas estratégias empresariais dominantes das próprias empresas inovadoras, ainda centradas na redução dos custos e não na diferenciação dos produtos e diversificação dos mercados. Os "efeitos da inovação" que os empresários portugueses consideram mais importantes nas suas empresas, situavam -se na inovação orientada para o processo, focando com particular relevância a redução dos custos com energia, materiais e trabalho.
As vantagens da integração no mercado europeu rapidamente foram anuladas pela nossa incapacidade de tirar partido da globalização, da qual só sofremos os efeitos negativos, do ponto de vista, do aparelho produtivo, já que, na perspetiva dos consumidores, reforçou o efeito da integração no euro ficando as importações mais baratas. Portugal vira -se completamente para a Europa, onde se situa numa posição cada vez mais periférica. Estão em curso mudanças no enquadramento geoeconómico do país ,que nos podem ser favoráveis, reposicionando -nos de uma posição periférica no mapa europeu para um lugar mais central no mapa global. A intensificação do comércio mundial, levou a alterações importantes na tecnologia dos transportes marítimos e, nas rotas internacionais, nomeadamente com a próxima entrada em funcionamento do canal do Panamá alargado. Anos sucessivos de saldos favoráveis das balanças externas tornam possível o crescimento significativo dos mercados externos, com a emergência de um novo grupo de investidores internacionais. É  certo que a melhoria da competitividade dos transportes internacionais, vem possibilitar que o território nacional seja mais competitivo, na captação do investimento industrial. Nas próximas décadas, o desenvolvimento destes serviços de transporte pode favorecer uma nova dinâmica de industrialização. Se conseguirmos articular esse desenvolvimento com o aproveitamento dos avanços em curso, na capacidade tecnológica nacional, teremos uma oportunidade de acelerar a mudança da nossa estrutura de especialização para setores de maior valor acrescentado e dinamismo do processo mundial. Estando nós, dentro de um enorme mercado sem fronteiras internas e beneficiando do acesso a canais de distribuição, temos vantagem em proceder à integração de produtos com componentes importados e outros fabricados na proximidade, nomeadamente, os que utilizam as ferramentas de produção industrial onde somos competitivos.Portugal, que já explora atualmente "vantagens de proximidade" no mercado único europeu, face a concorrentes longínquos e fora de fronteiras verá essa vantagem reforçada. Os desenvolvimentos tecnológicos irão permitir a intensificação de investimentos nas empresas renováveis, com um maior conteúdo tecnológico e industrial nacional, criando condições, não só para diminuir a dependência energética, mas também para a emergência de novas exportações de elevado valor. Um país como o nosso, que tem uma indústria de bens de consumo duradouros pouco desenvolvida, terá no novo modelo de consumo uma nova oportunidade de desenvolvimento, inovando pela diferenciação. Constata -se que a qualidade do modelo de consumo pode ajudar a desenvolver um modelo de especialização internacionalmente competitivo.
A política de captação de IDE  deve ser reforçada tendo por objetivos:
- dar prioridade à captação de investimentos de menor dimensão, mas de elevada intensidade tecnológica que reforcem as externalidades  já oferecidas pelo tecido nacional de empresas de meios de produção;
- adoptar políticas fiscais que reforcem a capacidade das nossas empresas;
- rever a política de apoio à internacionalização que deve ser avaliada nas exportações de bens e serviços a partir do território nacional.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A QUEDA DEMOGRÁFICA: CONSEQUÊNCIAS

A maioria das economias desenvolvidas cresceu o suficiente para permitir à maior parte das pessoas melhorar as suas condições de vida. O fator central da questão demográfica, especialmente para os países desenvolvidos é saber quão rapidamente a força de trabalho se irá expandir ou se chegará mesmo a crescer. Em tempos normais, a força da mão-de-obra da maior parte das pessoas expandiu -se regularmente; por isso todos os anos há mais pessoas a trabalhar para produzir os bens e serviços do país. Contudo, um país pode desperdiçar o potencial crescimento extra de uma força de trabalho em rápida expansão, se não formar os novos trabalhadores ou se não der as condições e os incentivos que podem aumentar a sua produtividade média. Quando a força de trabalho de um país está em contração, a economia funciona com uma desvantagem significativa, e fazer investimentos mais elevados na educação, formação, nas tecnologias e nos métodos comerciais, que podem aumentar a produtividade, torna -se praticamente a única forma de sustentar um crescimento profundo. A posição do Japão entre os dias de hoje e 2020 é a mais assustadora. Por volta de 2020, o Japão terá quase nove milhões a menos de pessoas, com idades compreendidas entre os 20 e os 60 anos, uma contração de quase um por cento ao ano do número de pessoas disponíveis para criar a maior riqueza da nação. Ora dado que, a velocidade com que um país cresce é basicamente o produto da quantidade de novos trabalhadores que adiciona, e da velocidade com que a produtividade dos trabalhadores aumenta, os aumentos normais da produtividade de 1,5 a 2,5 por cento ao ano durante a próxima década, deixarão o Japão à beira da recessão. Também o número de italianos e franceses irá cair entre hoje e 2020. O lado positivo para a Alemanha, França e Itália é o fato de haver a possibilidade das taxas de desemprego elevadas descerem na próxima década. Mas mesmo com o desemprego mais baixo e o crescimento mais lento, haverá menos crescimento económico para a Europa, nos próximos dez a quinze anos. Esta situação explica -se pelo fato de as pessoas em idade ativa serem responsáveis pela maior parte das poupanças pessoais de todos os países e da quantidade das poupanças de uma nação afetar os recursos financeiros que um país tem para investir. As pessoas mais novas gastam mais do que aquilo que ganham; os reformados gastam aquilo que poupam para poderem conservar a saúde, o estilo de vida, apesar de ganharem muito pouco. Em todos os países, as pessoas que se encontram nos anos de auge salarial, entre os 30 e os 50 anos de idade são as que fazem mais poupanças na sociedade. Ao longo dos próximos quinze anos, com dezenas de milhões de europeus a entrar na reforma e com menos pessoas novas na vida ativa, os países terão menos recursos para expandir a sua riqueza.
Entre os dias de hoje e 2020, as taxas de poupança pessoal irão cair na maioria dos países, à medida que a percentagem das populações composta por pessoas mais velhas aumentar e a quota da população composta por pessoas na casa dos 30 e 40 anos diminui. Em muitos dos países mais ricos do mundo, a vida da maioria das pessoas não oferece melhorias. As acentuadas quedas das taxas de natalidade criam um aperto económico, ao qual grande parte da Europa e do Japão não conseguem escapar, durante pelo menos uma geração. Por outro lado, os encargos económicos dos sistemas de segurança social são incompatíveis com um crescimento económico saudável. Também , os impostos que financiam as pensões estatais da maioria dos países, o IVA e, frequentemente uma  parte dos impostos sobre os rendimentos, assim como os impostos sobre os salários aumentaram significativamente em todos os países. Perante tal situação, as pessoas em quase todo o lado, já disseram "Basta".
De fato, a vontade de investir das empresas, a disponibilidade das pessoas para trabalhar mais tempo e a capacidade das empresas a crescer, começa a regredir a um ritmo significativo. De uma forma ou de outra as alterações demográficas irão ter impacto na vida das pessoas em todo o mundo: no valor do crescimento das economias nacionais, nos rendimentos familiares e no valor máximo que os impostos podem atingir.